Que são essas tais vontades, camaradas?

É estranho quando algo que muito se persegue se torna insípido de repente. Somos tomados de assalto e, diante de nenhuma outra alternativa, paramos e refletimos sobre onde o erro está. Acontece que, na vida, ao contrário de como a matemática faz parecer, não é fácil apontar que parte da equação não condiz com aquilo que se espera. Estão aí os sofrimentos, pendurados, como macacos, nos longos galhos de dúvidas e de indecisões que crescem sobre nossas cabeças.

Cheguei aonde pretendia: que são essas vontades doidas que nos demovem, para, em seguida, largar-nos à míngua, desiludidos e alquebrados? Decerto, não são sonhos, que nos cobrem os olhos e se descortinam nas horas de torpeza. Não, essas vontades de que falo são de estirpe muito menos nobre e de caráter muito mais vil; são capazes de penetrar nossa alma, de corromper nosso espírito e de instilar nossa libido, mirando em nosso cérebro, mas acertando, em cheio nosso coração.

Derrubados, sentimo-nos tolhidos. Segredos são expostos, lágrimas são derramadas, gritos são contidos. A pergunta, outra vez, assombra, não quer nos prover a paz: que são, camaradas, essas tais vontades, que conosco se digladiam, que nos vencem, que nos dominam? Que dirão a elas, caros amigos, quando vierem nos perturbar, levando consigo nossa consciência, nosso porvir, nosso despertar?

Tomaram-nos tudo, e já nada queremos ter. Aliás, é de nada, de nada ansiar, de nada alcançar, de manter nada que, até aqui, conseguimos nos arrastar. Aprendemos a nos livrar da própria pele, a abandonar os grilhões do conforto e a escarrar nos lábios dos que se nos apresentam com boa vontade. “São as tais vontades”, gritamos. “São as tais vontades, que nos comandam, que nos sorvem, que nos destroem”, persignamo-nos e pedimos perdão. “São as tais vontades, que se nos incorporam, que nos impelem e que, deliciosa e dolorosamente, impõem sobre nós sua imperiosa influência, dando-nos a inebriante sensação de experimentar aquilo que, de outro modo, ficaria esquecido, que seria rechaçado”, dizemos e sorrimos. “São as tais vontades, negras artes do diabo, que nos absorvem e que nos deleitam”, confessamos uns aos outros.

Então, muito mais tarde do que deveríamos, descobrimos que o tão almejado erro está em nos escondermos de nós, em nos ocultarmos do eu. Buscamos, estupidamente, soluções para conter as forças pelas quais, na verdade, desejamos ser rasgados. Ao perceber a inocuidade desse movimento, corremos a esculpir uma máscara de um fleumático e mal disfarçado arrependimento. Do quão ridículo ao nossos olhos pareceremos, desaceleramos e, menos ingênuos do que antes, tornamos a pensar. Dessa vez, a conclusão surge sem muito esforço, como se ali, à espreita, sempre tivesse estado — e, de fato, esteve. “As tais vontades, camaradas, são lembretes de que o tempo corre, de que a vida escoa! As coisas das quais elas nos livram são engodos, distrações. As tais vontades nos revelam o que há além da vista e nos apresentam o que há além da superfície”, dizemos em voz alta e disso nos convencemos. Plenos, então, da esperança dos que se sentem preenchidos de objetivos, voltamos a nossos antigos caminhos, mais felizes, menos vazios.

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Algumas palavras de um angustiado.

Há dias em que a angústia bate à porta e instaura em nós uma infelicidade sufocante. Alguns pensam que isso faz parte do pacote que carregamos com o rótulo de “humanidade”; outros, menos conformistas, estranham essa presença e tentam se livrar de sua influência. Pessoalmente, escuto todos esses argumentos e decodifico somente baboseiras: não sei o que a angústia é; não tenho pretensões de defini-la, como se isso a limitasse, como se isso me habilitasse a enfrentá-la.

Nos dias em que sou por ela invadido, tenho a tendência de me tornar mais nostálgico, de buscar tudo aquilo que rompa minhas barreiras e que acesse minhas enormes reservas de sentimentos; até me concedo a oportunidade de escrever em primeira pessoa e de abandonar, mesmo que por pouco tempo, a máscara de segurança que finjo ter. Este é o poder sobrenatural da angústia: sabe-se lá qual a razão por detrás disso, ela nos mobiliza ao nosso pior, ataca nossas principais defesas, sabota nossas melhoras armas e mina, por completo e sem remediação, nossa capacidade de resistir.

Costumo pensar que a angústia é o uivo lá fora, nas noites de inverno, que nos arrepia da cabeça aos pés e que nos faz buscar o mais profundo recôndito de nossos cobertores. Seu avanço é silencioso; sem percebermos, somos atraiçoados, acometidos pela falta de vontade, rasgados em pedaços pequeninos e lançados fora, sem dó. Tornamo-nos menores que o nada, mais distantes que o infinito e tão desconectados com nossa essência quanto jamais seríamos capazes de imaginar. Não vemos nem luz nem trevas: não vemos, recusamo-nos a ver e nos satisfazemos por escolher um rumo qualquer à resiliência.

Que maldito é o ser que se agrada, ou que afirma se agradar, por poder apenas escolher! Que sentido há em alegrar-se por algo cujo resultado não se pode prever? Sentido não existe; somente há entrega, somente há culpa e somente há sofreguidão, excessivas doses de sofreguidão. Não se deve esperar vencer o que não pode ser vencido: a angústia venta, e a espinha verga, estala e se esfarela; essa é, creio, a última imagem que o suicida mentaliza e a única capaz de lhe fornecer o impulso necessário para o risco que tenciona assumir.

Percebo que a existência se prolonga além de tudo, além de seu próprio fim, mas que não consegue atravessar o deserto da angústia; noto, também, que não o atravessa porque não o conhece, porque não o domina, porque sequer sabe do que é feito. Se a angústia é observada, nada em seu semblante revela os ácidos que queimam em seu interior, os quais logo ferverão em nossas veias e derreterão nosso juízo. A angústia escarrou na face direita de Deus e, todos os dias, ri dos homens e das mulheres que assassina para provar que suas esperanças de que a vida pode ser melhor são falsas e que o universo, no término de tudo, não lhes acolherá a alma. A angústia quer demonstrar, pela experiência, que somos pó e que a ele retornaremos; nós, que, de fato, somos pó e que a essa condição brevemente voltaremos, enxergamos aí, enviesadamente, um demérito e nos encolhemos, plenos da certeza de que nada pode ser feito. A angústia está dentro de nós e atende pela alcunha de “consciência”.

Não se deve esperar vencer o que não pode ser vencido: a angústia venta, e a espinha verga, estala e se esfarela; não se pode vencer a angústia porque de angústia e de carne somos feitos todos nós. Arrancá-la de nós é como abrir o peito, apunhalar o coração e sentir o sangue jorrar: podemos levar a cabo a tarefa e, de início, no calor da adrenalina, conseguimos aproveitá-la, porém, subitamente, mesmo que não haja a dor, o corpo se ressente da ausência de tudo o que lhe preenchia e entra permanentemente em greve. A angústia é o princípio que torna a contradição possível neste mundo, na medida em que é o vazio que mais nos completa e que mais contribui para nossa personalidade.

Sobre o segredo das relações

Minha vida se tornou uma busca constante pelo melhor método de investir meu tempo e minhas expectativas. De todas as reflexões que tenho promovido, nenhuma delas me demoveu da ideia de que os problemas que enfrento são totalmente externos a mim. Não quero dizer com isso que não sou afetado por eles, porque estaria mentindo, mas desejo, ao contrário, destacar que tenho consciência de que não posso dedicar ainda mais atenção à solução de tudo isso: não sou capaz de modificar o que não pretende ser modificado, não tenho poderes sobre aquilo que não permite que eu me aproxime.

Depois que se chega à vida adulta, quando se tem de lidar com situações jamais imaginadas, um desespero parece crescer em nosso peito. Alguns dizem de cá que devemos nos impor; outros dirão de lá que ceder é uma qualidade valiosa; ninguém, contudo, é capaz de compreender que temos, todos, percepções e níveis de maturidade diferentes: a idade biológica nada acrescenta à sabedoria dos indivíduos, porque essa é a função da experiência, e experiência ainda não é vendida em porções nos mercados. A conclusão a que costumo chegar é a de que ajo conforme consigo espaço para me movimentar. Prefiro saídas afáveis, jogadas honestas e palavras trocadas às claras, ainda que delas resultem mágoas esporádicas.

Um dos últimos textos que escrevi defendia que o ritmo de qualquer relação interpessoal deve ser ditado pelo respeito. Também sobre isso costumo refletir e relacionar à causa de meus problemas. A verdade é que grande parte de tudo o que me angustia ultrapassa, em determinado ponto, a área de influência dessa palavrinha de três sílabas. O que não me provoca desconforto incomoda terrivelmente outras pessoas, sobretudo aquelas com quem de fato me importo. Gostaria de fazê-las compreender, em nome do sentimento que nos une, que o maior compromisso que consinto assumir é comigo mesmo, com a ideia de que um dia morrerei e de que, talvez, não poderei sequer carregar minhas lembranças. Vem daí minha urgência de declarar que andarei sempre em conformidade com a minha vontade e jamais em função de expectativas que não forem minhas.

Se não somos capazes de modificar o que não pretende ser modificado; e se, ao constatar esse fato, permanecermos interessados em nos manter próximos ao ao alguém que se sabe imutável, apenas seremos capazes de não solar essa receita se lhe acrescentarmos grandes doses de respeito, que diluirão todas as mágoas, adoçarão o sabor dos arrependimentos e hidratarão a massa de felicidade de ambas as partes. Caso se tenha a intenção de receber algo em troca, não há outra solução senão a de investir no outro.

 

Alertam os especialistas de Harvard: crie sua coleção particular de sorrisos

Se vir por aí um sorriso, não hesite: fotografe-o. De acordo com pesquisa assinada por gabaritados acadêmicos de Harvard, as contrações musculares que distorcem as feições humanas, movimento a que chamamos de sorriso, estão em extinção. Ainda não se sabe a causa subjacente a esse processo, mas já é possível antecipar que seus efeitos sobre toda a espécie, em médio prazo, serão devastadores. Donas de casa brasileiras, mineiros aposentados da Inglaterra e plantadores de arroz mongóis são unânimes ao afirmar: ao longo das últimas décadas, têm faturado mais dinheiro e testemunhado mais ataques terroristas do que contemplado um sorriso sincero, daqueles bem calorosos e radiantes.

O alarme que a pesquisa traz é ainda mais crítico: verdadeiras gerações, por todo o globo terrestre, nascem e crescem sem conhecer sequer um sorriso. Se não acredita, eles sugerem, faça o seguinte teste: grude seu nariz à vidraça de sua sala e observe as crianças de sua vizinhança; se houver alguns exemplares em sua casa, a experiência é ainda mais fácil. Assim que localizar suas cobaias, anote, com o auxílio de um cronômetro, de um lápis e de um pedaço de papel, a quantidade de vezes, em função de um período “x” de tempo, que esses pequenos indivíduos arreganharão seus dentes em um sorriso aceitável. Depois, divida as ocorrências de sorriso que encontrar pelo período de tempo acompanhado: quanto menor o número alcançado pelo resultado, menores as esperanças de a sociedade em que essas crianças crescem de se manter sadia e ajustada.

Sejamos mais práticos, afinal, lápis, papéis e cronômetros não pertencem ao cinto de utilidades de todos os homo sapiens que habitam no século XXI. Mostrem-se às crianças-cobaias fotografias de diversas expressões faciais e de inúmeros objetos corriqueiros; em  seguida, que se lhes peça para identificar aquelas em que um semelhante sorri. Ao encontrar quem seja capaz disso,  zele por esse alguém. Aconselho, na rabeira dos estudiosos de Harvard, que sua atitude seja mais incisiva: fotografe e guarde essa imagem à vista, para que, todos os dias, ao acordar, a vida recomece com aroma de café e com a visão de um sorriso. Crie sua coleção pessoal de sorrisos e viva mais.